Seja bem-vindo
Jaraguari,09/04/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Havaianas entra no centro do debate político após propaganda com Fernanda Torres

Escolha de artista com posicionamento político conhecido e frase ambígua levantam debate sobre comunicação subliminar e polarização.


Havaianas entra no centro do debate político após propaganda com Fernanda Torres

A mais recente campanha publicitária da Havaianas colocou a marca no centro de uma forte polêmica nacional ao trazer a atriz Fernanda Torres como protagonista de um vídeo de fim de ano divulgado nas redes sociais.

No comercial, a atriz brinca com a expressão popular “começar o ano com o pé direito” e afirma: “Eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. O que eu desejo é que você comece o ano com os dois pés”. A mensagem, segundo a marca, teria caráter motivacional, incentivando atitude, movimento e coragem para o novo ano.

Apesar de não haver qualquer menção direta a partidos, candidatos ou eleições, a campanha foi rapidamente interpretada por setores da direita como uma mensagem simbólica e política, especialmente pelo uso da expressão “pé direito” em um contexto pré-eleitoral, às vésperas das eleições de 2026.

Pedidos de boicote e reação política

Após a divulgação do vídeo, políticos e influenciadores alinhados à direita passaram a acusar a Havaianas de promover uma campanha ideológica disfarçada, convocando boicote à marca nas redes sociais.

Entre os que se manifestaram publicamente estão parlamentares do Partido Liberal (PL), como Rodrigo Valadares, Nikolas Ferreira e Bia Kicis, que alegaram que a peça publicitária teria atacado simbolicamente o campo conservador.

A polêmica ganhou ainda mais repercussão quando o empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, publicou uma reação ironizando a campanha e promovendo marcas concorrentes.

Contexto empresarial e institucional

A Havaianas pertence à Alpargatas, controlada desde 2017 por um grupo liderado pela Itaúsa, ligada ao Itaú Unibanco, com participação dos fundos Cambuhy e Brasil Warrant, associados às famílias Setúbal e Moreira Salles.

O CEO da Alpargatas, Liel Marcio Cintra Miranda, integrou recentemente o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) do governo Luiz Inácio Lula da Silva, órgão consultivo conhecido como “Conselhão”.

Embora a participação no conselho não tenha caráter partidário, críticos passaram a associar esse contexto institucional à campanha publicitária, reforçando a narrativa de alinhamento político da marca.

Debate sobre marcas, política e polarização

O episódio reacendeu um debate recorrente no Brasil e no mundo: até que ponto marcas devem se posicionar politicamente — ou evitar qualquer mensagem que possa ser interpretada como tal?

Especialistas em marketing alertam que, em ambientes altamente polarizados, a percepção pública muitas vezes se sobrepõe à intenção original da campanha, especialmente quando envolve figuras públicas com posicionamento político conhecido.


OPINIÃO – Publicidade subliminar e viés político velado

Na minha avaliação, a polêmica em torno da campanha da Havaianas não surge por acaso — e tampouco pode ser reduzida a “imaginação”, “sensibilidade excessiva” ou “teoria da conspiração”. Publicidade, sobretudo em grandes marcas, nunca é apenas texto ou imagem. Ela é construída a partir de símbolos, contexto histórico, timing e, principalmente, da figura escolhida para transmitir a mensagem.

Fernanda Torres não é uma artista neutra do ponto de vista político. Ao longo dos anos, ela se posicionou publicamente em temas sensíveis, sempre alinhada ao campo progressista e à esquerda. Isso não é um julgamento de valor, mas um dado objetivo. Quando uma marca do porte da Havaianas decide colocá-la como rosto de uma campanha nacional, em um momento pré-eleitoral e em um país profundamente polarizado, assume conscientemente o risco de comunicar algo além da mensagem literal.

A frase “não comece 2026 com o pé direito” pode até ser defendida como metáfora motivacional. No entanto, no campo da comunicação, mensagens não vivem isoladas de seu contexto. Elas dialogam com o ambiente político, social e cultural no qual são lançadas. Nesse sentido, é plenamente legítimo que parte do público enxergue ali uma mensagem velada, simbólica, capaz de ser interpretada como viés político subliminar — não no sentido jurídico ou criminal, mas no sentido comunicacional e estratégico.

Não há pedido explícito de voto, não há slogan partidário, não há crime eleitoral. Mas há, sim, uma narrativa possível, construída pela soma de fatores: a escolha da artista, o período pré-eleitoral, a ambiguidade do discurso e o histórico recente de polarização no país. Ignorar essa leitura é ignorar como a comunicação funciona na prática.

O problema se agrava quando se trata de uma marca como a Havaianas, que detém cerca de 90% do mercado de chinelos e é consumida por brasileiros de todas as classes sociais, regiões e espectros ideológicos. Uma marca com esse alcance não precisa — e talvez não possa — brincar com ambiguidades políticas. Quando sua publicidade passa a ser lida como campanha política velada, ela deixa de cumprir um papel agregador e passa a atuar, mesmo que involuntariamente, como agente de divisão.







Em um país visivelmente cansado da polarização, talvez o maior erro não seja assumir um posicionamento claro, mas flertar com símbolos políticos de forma disfarçada, tratando-os como se fossem neutros ou inofensivos. Marcas que subestimam o peso simbólico de suas escolhas acabam contribuindo para o acirramento de tensões que já saturam o debate público — e descobrem, tarde demais, que em comunicação de massa percepção importa tanto quanto intenção.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.