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Jaraguari,11/04/2026

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Direita, esquerda e o vazio do propósito coletivo

O desafio não é escolher um lado, mas reconstruir pontes em uma sociedade cada vez mais dividida.


Direita, esquerda e o vazio do propósito coletivo

O Brasil se aproxima das eleições de 2026 carregando uma marca evidente do nosso tempo: a polarização política. Mais do que uma disputa entre projetos de governo, o que se vê é uma divisão profunda na forma como as pessoas se relacionam, se informam e enxergam umas às outras. A política deixou de ser apenas um campo de ideias e passou a ocupar o terreno das emoções, das identidades e dos afetos — ou da falta deles.

A ciência política já aponta que a polarização não se resume a discordâncias ideológicas. Em muitos casos, ela se manifesta como rejeição ao outro grupo, independentemente de propostas concretas. Ou seja, não é apenas sobre o que se defende, mas sobre quem se combate. Esse tipo de dinâmica transforma adversários em inimigos e o debate em confronto permanente.

No Brasil, esse fenômeno ganhou força nos últimos anos e se intensificou especialmente a partir dos ciclos eleitorais mais recentes. Diferente de países com sistemas partidários consolidados, aqui a polarização não se apoia somente em ideologias bem definidas. Ela é fortemente influenciada por contextos específicos, lideranças personalistas, redes sociais e disputas simbólicas que moldam comportamentos e emoções coletivas.

As plataformas digitais, por sua vez, funcionam como catalisadoras desse processo. Algoritmos tendem a reforçar visões semelhantes às já existentes, criando ambientes onde opiniões divergentes raramente circulam. Com isso, cresce a sensação de que apenas um lado está certo, enquanto o outro passa a ser visto como ameaça — não apenas política, mas moral e social.

Nesse cenário, quem tenta adotar uma postura crítica, ponderada ou independente costuma ser empurrado para um lugar desconfortável: o do “isentão”. Como se refletir antes de escolher um lado fosse sinônimo de omissão, e não de responsabilidade. A lógica binária elimina nuances e empobrece o debate público, tornando impossível qualquer construção coletiva que vá além da disputa.

Os reflexos dessa divisão já não ficam restritos ao ambiente institucional. Eles chegam às mesas de jantar, às confraternizações de fim de ano, às rodas de amigos e às famílias. Uma simples opinião pode acender conflitos desproporcionais. O que deveria ser encontro vira embate; o que deveria ser conversa vira acusação. A política passa a ditar rupturas onde antes havia convivência.

A grande questão que se impõe é se essa fragmentação serve, de fato, aos interesses da sociedade. Há indícios de que a polarização extrema favorece a manutenção de projetos de poder baseados no medo, na mobilização constante contra um “inimigo” e na substituição do debate racional pela lealdade emocional. Quando a população se divide profundamente, torna-se mais difícil discutir problemas estruturais, cobrar soluções concretas e pensar em um propósito comum.

Isso não significa negar divergências — elas são naturais e fundamentais em qualquer democracia. O problema surge quando a discordância deixa de ser produtiva e passa a ser destrutiva. Quando o outro deixa de ser alguém com uma visão diferente e passa a ser alguém a ser eliminado do debate.

Às vésperas de um novo ciclo eleitoral, o desafio que se coloca não é apenas escolher candidatos ou ideologias, mas decidir que tipo de sociedade queremos construir. Uma sociedade permanentemente em guerra consigo mesma ou uma capaz de conviver com diferenças, dialogar e buscar soluções coletivas.










Em tempos de extremos, talvez o ato mais político seja recuperar a capacidade de escutar, questionar e pensar além dos rótulos. Sem isso, seguiremos divididos — não por ideias, mas pela incapacidade de enxergar que nenhum lado constrói um país sozinho.




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